
O que deveria ser mais um período de aquecimento da economia turística do Noroeste do Paraná transformou-se em motivo de preocupação para comerciantes, empresários e trabalhadores que dependem da visitação às praias de água doce do Rio Paraná. As chuvas persistentes, a elevação do nível dos rios e a ausência de turistas estão comprometendo o movimento em destinos tradicionais, justamente durante um feriado que costuma atrair visitantes de diversas regiões.
Em Porto Rico, Porto Camargo, Porto São José e outros pontos turísticos da Costa Noroeste, o cenário preocupa; quem aguardava o movimento do feriado de Nossa Senhora Aparecida, celebrado em 12 de outubro. Em vez de restaurantes movimentados, pousadas ocupadas e famílias aproveitando as praias, muitos empresários enfrentaram dias de portas fechadas e faturamento zero.

Os relatos de quem está na linha de frente do turismo revelam a dimensão do problema. Há estabelecimentos que não conseguiram abrir durante os últimos finais de semana por causa das condições climáticas. Outros permaneceram abertos, mas praticamente sem clientes.
PORTO RICO: “A SITUAÇÃO ESTÁ DIFÍCIL”
Na orla de Porto Rico, um dos principais destinos turísticos do Noroeste paranaense, o empresário Favio Fernandez, da Petiscaria do Paraguay, descreve um cenário preocupante.
Segundo ele, a situação está difícil e as chuvas dos últimos finais de semana impediram o funcionamento do estabelecimento em diferentes ocasiões.
O relato evidencia um problema que atinge diretamente os empreendedores do setor de alimentação: sem condições favoráveis para o turismo e sem a presença dos visitantes, torna-se inviável manter a operação comercial nos moldes habituais.

Para estabelecimentos instalados na orla, o movimento depende, em grande parte, da presença de turistas que procuram passeios, lazer, gastronomia e atividades ao ar livre. Até para a atividade pesqueira, comum, nessa época de temporada; a chuva persiste, a programação dos amigos e famílias muda; os passeios e hospedagens são cancelados e afeta a economia regional.
A consequência é uma sequência de dias sem faturamento, enquanto despesas com estrutura, manutenção e compromissos financeiros continuam existindo.
A preocupação ganha importância quando se considera o papel do turismo na economia de Porto Rico. Em janeiro de 2025, a Secretaria de Estado do Turismo destacou o crescimento da atividade econômica nos municípios da Costa Noroeste, apontando o turismo como um importante gerador de empregos, renda e investimentos.
Em janeiro de 2026, dados divulgados pelo Governo do Paraná mostraram que Porto Rico passou de 124 empreendimentos comerciais em 2019 para 307 em 2023, crescimento de 148%. O mesmo levantamento apontou que o comércio local chegou a registrar aumento de até 30% em determinados setores durante a temporada turística.

Flagrante de Pesca no momento de temporal no Rio Paranã - Porto São José - Foto: Danilo Silva.
Esse histórico ajuda a dimensionar o contraste: uma economia que vinha se fortalecendo com a expansão do turismo agora enfrenta dificuldades diante de condições climáticas desfavoráveis.
PORTO CAMARGO TAMBÉM SENTE O IMPACTO
Em Porto Camargo, distrito de Icaraíma, a realidade não é diferente. A elevação do nível do Rio Paraná e as chuvas que atingem a região prejudicam a visitação à orla do balneário e comprometem as atividades de quem depende da chegada dos turistas.

A proprietária da Lanchonete Altas Horas, Kátia Azevedo, também relata dificuldades para manter o estabelecimento em funcionamento.
“Está difícil. Nem abrimos esses dias o restaurante devido às chuvas”, afirmou.
A declaração resume a situação enfrentada por pequenos empresários que dependem do movimento dos finais de semana e dos feriados para garantir uma parcela significativa de sua renda.
Em um destino de turismo fluvial, a chuva persistente interfere em praticamente toda a experiência do visitante. O passeio à praia perde atratividade, as atividades náuticas ficam sujeitas às condições de segurança, os encontros familiares são adiados e o consumo nos estabelecimentos da orla diminui.
A redução da visitação não afeta apenas os proprietários de lanchonetes e restaurantes. O impacto alcança fornecedores, trabalhadores, comerciantes e prestadores de serviços que integram a cadeia econômica do turismo.
POUSADAS SEM HÓSPEDES: CONTRASTE COM ANOS ANTERIORES
Se a situação já é difícil para o setor de alimentação, o cenário da hospedagem também preocupa. Allan Diego, da Pousada Recanto dos Sonhos, em Porto Camargo, afirma que a diferença entre o movimento registrado no ano passado e o observado neste ano é muito grande.
Segundo o empresário, praticamente ninguém apareceu para se hospedar no último final de semana, tornando difícil até mesmo estabelecer uma comparação entre as duas temporadas.

O relato revela um dos efeitos mais severos da queda na atividade turística: o prejuízo não se limita ao consumo imediato. Quando os visitantes deixam de viajar, hotéis e pousadas perdem reservas, enquanto restaurantes, mercados, postos de combustíveis e outros negócios deixam de receber os gastos que esses turistas normalmente fariam durante a estadia.
Em destinos como Porto Camargo, onde a pesca, os passeios de barco estão entre os principais atrativos, a permanência dos visitantes movimenta diferentes setores da economia local.
A CHEIA DO RIO PARANÁ AGRAVA A PREOCUPAÇÃO
Além das chuvas, a elevação do nível do Rio Paraná é outro fator que preocupa os municípios turísticos da região. O nível do rio está acima do normal em toda a região. Tanto que as praias no leito do rio, maior atrativo turístico do período, estão submersas.
Desde o mês de setembro, o avanço das águas atingiu níveis acima do normal, prejudicando temporariamente o uso do espaço pelos banhistas.

Pier em Porto Rico - Foto Lucio Freire
A combinação entre chuva persistente, as praias continuam totalmente submersas dificultando a atividade turística e reduzindo as opções de lazer.
É importante destacar que a cheia também desempenha funções ecológicas relevantes, inclusive para a reprodução de peixes e a dinâmica dos ambientes naturais. Entretanto, seus efeitos econômicos imediatos podem ser severos para comunidades cuja renda depende da utilização turística das margens do rio.
EL NIÑO E A INCERTEZA PARA A TEMPORADA DE VERÃO
A preocupação se estende aos próximos meses. Já em agosto de 2026, o SIMEPAR informou, que o El Niño está se intensificando e as projeções indicam chuvas acima da média no Paraná, até dezembro; com possibilidade de episódios de tempo severo, inundações e enxurradas.
Em previsão divulgada pelo SIMEPAR, o órgão voltou a apontar a influência do fenômeno sobre a passagem frequente de sistemas frontais e a expectativa de volumes de chuva superiores à média histórica no decorrer do mês.
Embora o El Niño não seja a única causa das cheias, o cenário climático reforça a preocupação do setor turístico com a primavera e o verão de 2026/2027.
Para os empresários, a principal incerteza é quanto tempo essa situação vai durar e em que condições os destinos conseguirão receber os visitantes.
A temporada de verão representa uma oportunidade importante de recuperação financeira para os estabelecimentos que atravessam períodos de baixa movimentação.
Caso as chuvas persistam, o setor poderá enfrentar a maior crise dos últimos anos.
AQUI A ECONOMIA DEPENDE DA CHEGADA DE TURISTAS
O crescimento do turismo na região Noroeste nos últimos anos modificou a dinâmica econômica de diversos municípios. A expansão de pousadas, restaurantes, marinas, comércios e serviços mostra como a atividade passou a ocupar um espaço importante na geração de renda regional.
Entretanto, os relatos de Favio Fernandez, Kátia Azevedo e Allan Diego mostram a vulnerabilidade de uma economia que depende, em grande medida, das condições do tempo e da atratividade das praias.
Quando os turistas não chegam, não é apenas o movimento da orla que desaparece. São as vendas que deixam de acontecer, as diárias que não são ocupadas, os funcionários que podem ter menos oportunidades de trabalho e os pequenos empreendedores que precisam enfrentar os custos fixos sem a receita esperada. O momento exige atenção dos gestores públicos, das entidades empresariais e dos representantes do setor turístico.

Orla de Porto Rico - Petiscaria do Paraguay - Foto: Lúcio Freire
O CONTRASTE ENTRE 2025 E 2026
O contraste com o ano passado chama a atenção de quem trabalha com turismo. Em 2025, a região viveu um processo de fortalecimento da atividade, com expansão dos empreendimentos, investimentos em infraestrutura e aumento da procura pelos destinos de água doce.
Agora, em outubro de 2026, estabelecimentos fechados por causa da chuva; hotéis e pousadas sem hóspedes em um período que tradicionalmente deveria contribuir para o faturamento.
Para quem vive do turismo, a esperança é de que as condições climáticas melhorem, as águas recuem e os visitantes voltem a frequentar as praias, restaurantes e pousadas do Noroeste paranaense.
Até lá, a região enfrenta um desafio que vai além do mau tempo: preservar a renda dos empreendedores e a força de uma atividade econômica que se tornou fundamental para as comunidades às margens do Rio Paraná.
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